terça-feira, 12 de maio de 2015

Vitórias (inhas)

"É o sabor da vitória que nos agarra, nos prende e que, como uma droga, nos obriga a querer voltar a sentir o mesmo, nos obriga a voltar a começar o processo para, ao fim de alguns meses, ou talvez anos, podermos repetir estes segundos de força descomunal e fraqueza emocional, estes segundos de felicidade descontrolada."
"Correr ou morrer", Kilian Jornet 

Estes segundos de felicidade descontrolada... a corrida tem trazido muitos benefícios à minha vida. A sério que sim. Já mencionei a força que me deu e que me dá, a segurança que consigo transportar para outras áreas porque simplesmente sei que consigo. Tudo ou quase tudo nos exige trabalho, dedicação, empenho, disciplina, amor. E esta é a principal lição. A felicidade advém disto mesmo. Das grandes vitórias mas também das pequenas. Aquelas que somadas significam muito mais do que todas as outras. Chegar ao Cais do Sodré, aguentar duas horas a correr, rir e rir e rir e continuar, beber água nos bebedouros que sei de cor, gritar "muitá boas", cumprimentar outros tantos, rir e rir e rir, deitar na relva, apreciar a luz da hora azul, tirar fotos parvas, sentir as pernas a seguir sozinhas, não perder o fôlego, simplesmente continuar. Porque sim. Porque consigo. Estas são as minhas pequenas vitórias. As felicidades controladas porque sei como as alcançar. Basta ir. 



domingo, 10 de maio de 2015

On fire!

Esta semana ficou marcada pelo calor. Para a maioria dos corredores este talvez não seja um problema mas, para mim, é. Desde que me iniciei na corrida que fujo do sol. Opto pelas horas nocturnas e pelo vento fresco. Na verdade, nem sequer é uma coisa só da corrida. Quando se inicia o verão normalmente fico doente. O meu corpo não aprecia a mudança de temperatura, fico mal disposta, sem forças e lá me ataca uma qualquer enfermidade. Depois o hábito educa a minha existência e tudo corre bem. Menos na corrida. Passadas rápidas ao sol são sinónimo de arrepios descontextualizados, quebras de tensão, sensação de sufoco ou mesmo desmaio. Faço um esforço sobre-humano, consciente de que as provas são durante o dia e não me posso dar ao luxo de escolher a brisa, a temperatura, a vista e o solo. Assim, esta semana iniciei toda uma adaptação. Comprei calções [e saí de casa!], carreguei uma garrafa de água e dirigi-me a todos os bebedouros para, sem a mínima graciosidade, baixar a temperatura de um cérebro quase em explosão. 
Foi uma boa semana!

Semana #5
Número de corridas-4 
Corridas acumuladas- 20
Quilómetros realizados- 39.5
Quilómetros acumulados- 155.5
Sentimento geral- on fire!





[arrefecimento prévio para os 14k de hoje...]

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Não espero compreensão

Não sei bem como explicar isto sem ser mal interpretada. O que quero dizer é que a corrida talvez seja uma atividade solitária. Ou para mim, às vezes é. No meio de uma multidão, ao lado de alguém... É o momento em que me sinto mais só. Não há como explicar. Talvez esteja associado ao esforço, a algum sofrimento físico. A dado momento toca com outras feridas, outras dores. Mas não num mau sentido. Não se trata de uma fustigação. É quase um curar de feridas. Uma comunhão. Às vezes, quando me está a custar muito, muito, os meus olhos enchem-se de lágrimas. Não são as dores nas pernas, nem o cansaço. Mas naquele momento, a vulnerabilidade abre uma brecha. E... fazemos uma catarse, permitimo-nos a sentir. Não sei explicar. Quando me sinto cansada, às vezes choro a correr. E quando chego ao fim do objetivo sinto-me feliz. Não sei se porque simplesmente passei a meta ou se porque me renovei. Não sei. 

[Hoje foi de Oeiras a Algés. Tive vontade de parar, de vomitar e de chorar.]




terça-feira, 5 de maio de 2015

Vejo com os olhos fechados

"Como os atacadores que juntavam os dois lados dos meus ténis, a corrida estava a enredar-me, cada vez mais, com a minha cidade."

Correr não é para meninas, Alexandra Heminsley


A estrada férrea soma cerca de três quilómetros. Com o início na Cruz Quebrada, atinge o seu fim no princípio de Caxias. Os comboios passam em grande  ritmo e, ainda assim, se olhar no tempo certo vejo o seu início. Quando termina o gradeamento, do lado direito, vejo pedras pintadas. Rosa, vermelho, azul... Do outro lado, um espantalho improvisado. Uma árvore despida. Uns dizeres no chão. Na encosta camuflada pelo comboio estão alguns reentrâncias habitadas. Descobri as escadas até lá, do lado da estrada. O farol é lindo de tão próximo. Lá ao fundo, a água está mais próxima e dou a volta. Findo o caminho inverso, vejo agora a ponte ao fundo. Termina o cimento tosco e passa-se a estação- graffitada mas bonita. O abandono grita por ali. Segue-se um corredor de um empedrado irregular. Um montão de gatos anuncia-se pelas tigelas empilhadas no jardim esquecido. A ponte é de ferro e deixa-nos ver o rio por debaixo- ora discreto, vivo. Quando corremos ao lado do comboio em movimento, a sensação é... não sei. Quase como se fossemos forças combinadas. O meu filho tem medo e corre mais devagar. Dou-lhe a mão que aceita. Desço agora numa grande curva. O chão é liso e vermelho. Por esta altura é ladeado por papoilas e malmequeres. Às vezes tem pedras para nos lembrar do poder das marés. Nesses dias, olha-se para o chão, com cuidado. Conta-se um quilómetro e meio. Passo por barcos e cabanas de pescadores. Vejo a praia e cheiro. O caminho é lindo e espanto-me sempre por estar ali, para mim. A ponte está mais próxima e agora percorro mais um pedaço de cimento. Dunas mais altas impedem-me de ver o rio. Ainda assim, do outro lado da estrada, as luzes enchem as casas. As bonitas não têm cortinados. Vê-se uma casa de madeira, numa árvore. Tem uma escada de caracol e um pequeno varandim. Observo pequenos palacetes e vestígios de habitações de outros tempos. Os apartamentos de hoje mostram tectos altos e decoração a rigor. Corro a imaginar as gentes. Chego a uma decisão. Vou em frente pelo recanto obscuro ou faço mais quinhentos metros pelo restaurante com cheiro a abacate e lima. Das duas formas quero chegar àquele passeio. Por detrás (mais ao lado) do edifício moderno está a outrora doca. O silêncio e a luz... É como se só eu conhecesse o sítio por detrás da bela cascata. Volto para trás contornando o mini farol de riscas verdes e brancas. Os pássaros pequenos e gordos sobem e descem a rampa que ladeia o rio. Só os vejo ali. A esplanada está muda, os candeeiros apagados e o caminho continua. Mais perto da ponte, segue-se o passeio das pedras grandes e gastas. Passo por turistas que registam o lusco fusco por detrás do monumento em forma de torre. Inicia-se o alcatrão pintado. Frases e símbolos a amarelo ilustram a passada. Vejo agora espaços verdes a contrastar com o rio já prateado. Sigo o traçado e sei os quilómetros de cor. Mais sete até ao próximo marco. Volto a passar em chão com história, pisando agora azulejos pintados. Os descobrimentos são ladeados pelos nossos passos de hoje. Contorno a estação com marcas de gasolina e vejo atracado o barco conhecido. Volto a virar e vejo as pessoas sentadas. Ouço gargalhadas, sinto os copos e imagino o sabor dos caracóis. Volta o chão empedrado. Sigo pelas pedras lisas que demarcam a separação. Muito perto do rio, vou concentrada. Seguimos todos por ali. Cruzamo-nos e damos passagem. Às vezes sorrimos, às vezes movimentamos levemente a cabeça. Agradecemos. Por detrás do museu há uma luz avariada. Ora acende, ora apaga. Pouco depois, volta o piso que agrada. Um glutão amarelo no chão, faz-me sempre sorrir. Chego à ponte. Já está iluminada. Por debaixo, ouço os seus sons. Metálicos, rápidos. Às vezes continuo. Outras fico por ali. Sei os quilómetros de cor. Escolho o que fazer. Posso passar pelos bares e restaurantes, atravessar a estrada e seguir em direção à outra ponta. Chegada ao Cais do Sodré, sei que consigo o que quiser. Ou posso voltar para trás ali mesmo, por debaixo da ponte. A recta é boa e direita. Dá para correr com os olhos fechados e com os braços para baixo. Abrir as mãos e sentir o sangue a chegar a sítios já adormecidos. Quinhentos metros de liberdade. O vento normalmente corre agora contra dando a energia necessária para o regresso. Tudo parece mais fácil. Vê-se os Descobrimentos e a Torre iluminada. Cheira a bifes. Cheiro que dói. Corre-se mais rápido. A estação de Algés é sempre feia e suja mas é casa. Volta-se ao início. Fiz 7, 10 ou 15k. Fiz o que quis porque consigo tudo. 






segunda-feira, 4 de maio de 2015

Os malucos reconhecem-se :)

Não conheço bem o Mário. Não conheço quase nada, aliás. Trabalhamos no mesmo local, sei que tem uma mulher linda, um filho maravilhoso e que corre. Passámos um pelo outro na Meia Maratona e isso bastou-me! O Mário criou um site que, relativamente a esta minha página, tem apenas uma pequenina diferença: está bem feito. Tem uma imagem espectacular, uma organização ainda melhor e um mundo de possibilidades no que respeita a conteúdos. O Mário é informático e eu socióloga. Preciso de dizer mais alguma coisa?
Visitem, porque vale a pena! Aqui.

domingo, 3 de maio de 2015

Ligações e aprendizagens

Hoje corri com eles. Estiveram ao meu lado (às vezes, à frente...), durante 9 k. Durante um momento começámos a rir. Os quatro. Nesse momento, a minha filha fechou os olhos e manteve-se assim, sem parar. Perguntei-lhe se estava bem. Disse-me: sabes, mãe, eles fizeram-me rir e eu tive de me ligar a mim. Sabes? Para voltar a respirar. 
Foi o melhor do meu dia. 





"Reparámos que está a correr mais rápido do que o esperado. Vamos fazer alguns ajustes."

Eu sou o que se pode chamar de control freak. Não começo a correr enquanto a app da ASICS não arrancar e, por via das dúvidas, ligo também a da Nike. A cada quilómetro ergo o braço até o ouvido para ouvir o ritmo médio e quase que me emociono com os incentivos da voz mecânica: Good run!See you tomorrow! Obsessões à parte, acho mesmo que é um bom auxiliar para quem quer atingir um objetivo. Com base nas caraterísticas que indicamos, define o número de corridas que temos de fazer, em que tempos e quais os dias em que devemos colocar o corpo a descansar. Faz análises comparativas dos nossos desempenhos e até nos tira fotografias para exercitarmos a nobre arte do auto-elogio. Isto tudo para dizer que fiquei muito feliz quando, hoje, após os 11k programados, recebi o email com a indicação acima. Estou a melhorar e é só isso que me interessa. 

"Estava a usar a corrida com fonte de entendimento e concentração, para me lembrar do que eu era capaz e para me estimular em todas as áreas da minha vida. Sentia-me imparável."

Correr não é para meninas, Alexandra Heminsley


Semana #4
Número de corridas-4 
Corridas acumuladas- 16
Quilómetros realizados- 32
Quilómetros acumulados- 116
Sentimento geral- a rolar :)